sexta-feira, 8 de julho de 2016

Além de Shakespeare - Christopher Marlowe e Thomas Kyd



Além de Shakespeare

Organizado por Bárbara Heliodora, Dramaturgia Elizabetana reúne peças escritas por dois dos mais importantes contemporâneos do bardo.
Por César Alves

Em 15 de maio de 1593, Thomas Kyd foi preso, sob a acusação de alta Traição. Após passar por uma série de torturas, teria acusado Christopher Marlowe de ser o verdadeiro dono de documentos heréticos que estariam em seu poder. Preso, logo em seguida, Marlowe teria assumido a responsabilidade pelos papéis e, até onde se cogita, a passagem estaria diretamente ligada ao seu misterioso assassinato, no dia 30 de maio do mesmo ano, dez dias após ser liberado da prisão.
A história, que poderia estar entre os atos de uma tragédia de William Shakespeare, é apenas um dos poucos e desencontrados dados biográficos de dois dos mais importantes contemporâneos do Bardo, cujas peças A Tragédia Espanhola, de Kyd; e Tamerlão e A Trágica História do Doutor Faustus, de Marlowe, chegam às livrarias brasileiras nas páginas de Dramaturgia Elizabetana (Editora Perspectiva), organizado pela crítica teatral, Bárbara Heliodora.
A Dramaturgia Elisabetana está diretamente ligada ao Renascimento. Revolução de idéias que viria a alterar de forma profunda e irreversível o pensamento e a própria civilização ocidental, iluminando as trevas que marcaram a Idade Média e encerrando uma das noites mais longas da história, a Renascença tem como epicentro a Itália e principais protagonistas famílias poderosas dispostas a promover um retorno ao belo estético clássico, vislumbrando, principalmente, a arquitetura e as artes, incentivando financeiramente ou adotando como protegidos, os mais promissores artistas disponíveis.
Da Itália o Renascimento se espalhou para o resto da Europa e, na Inglaterra, é no universo das letras que seu reflexo se mostrou mais impactante, principalmente na dramaturgia de William Shakespeare que viria a se tornar um dos pilares da cultura ocidental, exercendo influencia sobre tudo o que foi feito na literatura e dramaturgia até os dias de hoje.
O bardo, no entanto, não é astro solitário na constelação conhecida como Dramaturgia Elisabetana. De Ben Johnson a John Webster, passando inclusive por um ancestral distante do poeta americano T.S. Eliot, Sir Thomas Elyot, a era de ouro da dramaturgia, que vai do reinado da rainha Elizabeth I (1558-1603) e James (1603-1625), foi marcada por uma efervescência de obras e autores que vão muito além das tragédias de Shakespeare e é aqui que reencontramos os dois protagonistas do primeiro parágrafo, Thomas Kyd e Christopher Marlowe.
Thomas Kyd é tido como um dos dramaturgos da Era Elisabetana que teriam influenciado a obra de William Shakespeare. Pai do gênero que se tornou conhecido como “Tragédia de Vingança”, é aqui representado pelo texto que lhe valeu o título. Trama de sangue e vingança, A Tragédia Espanhola revela semelhanças incontestáveis com diversos dos textos do bardo, principalmente, Hamlet. Como o leitor poderá conferir na tradução, até então inédita, realizada por Bárbara Heliodora para a presente edição.

Sympathy for the Devil
Alguém já disse que Shakespeare está para a dramaturgia e poesia da Era Elisabetana como os Beatles para a musica do século vinte. Sendo assim, com o perdão da analogia pop previsível, a ninguém menos do que Christopher Marlowe cabe o título de Rolling Stones. Mente perigosa, tanto para momento político e social em que viveu quanto para sua própria segurança – como seu trágico destino acabou por comprovar –, Marlowe produziu uma série textos fundamentais para a poesia e dramaturgia elisabetana durante sua existência fugaz, dentre os quais se destacam Tamerlão e A Trágica História do Doutor Faustus da presente edição. Se o primeiro comprova de maneiro inquestionável o lugar de seu autor entre os maiores dentre os precursores do Bardo – se não o maior –, o segundo o coloca de forma definitiva entre os grandes nomes da dramaturgia ocidental.
Livre pensador, poeta, dramaturgo e adepto dos excessos do tabaco, do álcool e da carne – fáustico por natureza, dizem alguns, não sem razão – é praticamente inevitável fugir do clichê “artista que encarna a própria obra”, quando se trata de Marlowe e sua peça mais conhecida. Afinal, é em A Trágica História do Doutor Fausto que as idéias de Christopher Marlowe se manifestam de forma aberta, além de traçar as premissas que possibilitariam uma nova forma de teatro a partir da herança medieval.
Inspirado em um personagem real, o mito do homem de ciências que aceita barganhar com o Diabo em troca de conhecimento ilimitado já era encenado como peça moral, durante a Idade Média, mas é na adaptação de Marlowe – e, depois, Goethe – que o texto ganha as características que dão forma à maneira como o conhecemos hoje, em suas diversas manifestações através dos anos – indo da releitura de Thomas Mann ao cinema de Murnau. Aqui, a tradição de peça moralizante cristã é mantida em sua estrutura básica, com direito aos personagens do Anjo Bom e o Anjo Mau, representação da consciência e tentação nas profundezas da alma pecadora. Mas Marlowe subverte a tradição, principalmente nas falas do Demônio, antigamente representado como ser caricato e cômico, na interpretação da igreja. O Diabo de Marlowe, mais que um mercador de alma trapaceiro, está para um advogado que nutre simpatia pela humanidade e é em suas falas que mais se identificam a voz do próprio autor.
Filho de um sapateiro que demonstrou muito cedo talento para as artes e vocação para a transgressão, Marlowe também manteve uma atuação política secreta, atuando como espião a serviço de sua majestade. Espírito contestador numa época em que a contestação poderia resultar em sérios riscos, seu assassinato, aos 29 anos de idade, motivado por uma conta de bar, segundo a versão oficial, é carregado de mistérios, dignos de uma trama policial – como o episódio que abre este texto, por exemplo – e, ainda hoje, gera diversas teorias conspiratórias.

Caminhos do Teatro Ocidental
Bárbara Heliodora faleceu em abril do ano passado e, além deste Dramaturgia Elizabetana, publicou, poucos meses antes de sua partida, pela mesma editora, o excelente Caminhos do Teatro Ocidental. Como o próprio título já diz, a obra traça um histórico do fazer teatral no Ocidente, partindo do teatro clássico grego, passando pela Idade Média, Renascimento, até chegar aos nossos dias. Obra de referência, é apenas parte de um colossal legado que a escritora nos deixa para história da crítica e estudos das artes dramáticas que deverá ficar para sempre.

Serviço:

Título: Dramaturgia Elizabetana
Autor: Bárbara Heliodora
Editora Perspectiva
352 páginas

Título: Caminhos do Teatro Ocidental
Autor: Bárbara Heliodora
Editora Perspectiva
424 páginas



Jô Soares dirige "Histeria", comédia de Terry Johnson



Histeria
Peça de Terry Johnson disseca o encontro entre Salvador Dalí e Sigmund Freud

Em 1938, o pintor surrealista Salvador Dalí visita o pai da psicanálise Sigmund Freud, este já padecendo de uma doença incurável e às portas da morte. Fugindo da Europa nazista, Freud estabelecera-se em Londres e é deste encontro histórico e inusitado que nasce a peça Histeria, escrita pelo aclamado dramaturgo inglês Terry Johnson.

Escrita em 1993, a comédia teatral ganhou direção de John Malkovich e sua montagem foi aclamada em diversos países da Europa, com grande sucesso de público e crítica. Depois de assistir e se encantar com a montagem em Paris, Jô Soares traduziu o texto e agora dirige a versão brasileira da comédia consagrada pelo mundo.
O Espetáculo, que fica em cartaz até 31 de julho, traz no elenco Pedro Paulo Rangel, Cassio Scapin,
Erica Montanheiro e Milton Levy.

Serviço:
Teatro Tuca (672 lugares)
Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes

Informações: 3670.8455

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Cinema no Divã – A Psicologia Vai ao Cinema



O Cinema no Divã

A Psicologia Vai ao Cinema, de Skip Dine Young, explora os aspectos psicológicos da Sétima Arte.
Por César Alves

Em 1976, Travis Bickle ganhou a atenção do público norte-americano e do mundo, promovendo um verdadeiro banho de sangue para salvar uma adolescente do submundo na decadente Nova Iorque.
Cinco anos depois, John Hinckley Jr. também chamou a atenção do mesmo público, ganhando a atenção dos noticiários, com sua tentativa de assassinar o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, resultando em não menos violência.
Embora o objetivo de matar o chefe de estado americano tenha fracassado, o atentado terminou com várias pessoas feridas e Reagan atingido, sendo levado às pressas para um hospital, o que o salvou de se tornar parte da longa lista de presidentes assassinados em pleno exercício de mandato daquele país.
Ao contrário de Hinckley, Travis Bickle não pertence ao mundo real. Personagem interpretado pelo, então, jovem e promissor Robert de Niro, Bickle pertence ao imaginário cinematográfico do consagrado diretor Martin Scorsese. Seus atos, embora nada distantes da realidade urbana das grandes cidades – tanto naquela época quanto hoje em dia –, eram parte da trama roteirizada para o, ainda hoje, cultuado longa metragem que catapultou definitivamente, tanto De Niro quanto Scorsese, ao lugar que hoje ocupam entre os grandes nomes de Hollywood, Taxi Driver.
Apesar disso, embora separados pela linha – muito mais tênue do que imaginamos – que separa a realidade da ficção, Travis Bickle e John Hinckley estão conectados de forma assustadora.
Fã da película de Scorsese, ele teria assistido ao filme quinze vezes, enquanto se preparava para dar início aos seus planos. Como se não bastasse, soube-se depois que as intenções de Hinckley não tinham exatamente uma motivação política.
Ao contrário do que poderiam supor os Serviços de Inteligência, a tentativa de tirar a vida de Reagan não estava ligada a um grupo radical insatisfeito com a forma como o país vinha sendo conduzido pela gestão Reagan. Hinckley agira sozinho e não tinha nada contra o presidente. Seu intuito, na verdade, seria, através do atentado, chamar a atenção de Jodie Foster, por quem o atirador sofria de uma paixão doentia e platônica. A mesma atriz que interpretava a adolescente salva por Bickle, De Niro, no filme.
A história é o ponto de partida do livro A Psicologia Vai ao Cinema (Psychology at the Movies, título original), de Skip Dine Young, que acaba de chegar às livrarias brasileiras pela editora Cultrix.
Não pense o leitor, no entanto, tratar-se de mais uma defesa teórica tresloucada, acusando a indústria cultural de influenciar e incentivar a violência, como o caso citado na abertura do texto pode sugerir. A obra faz um estudo da Sétima arte através de seus aspectos psicológicos e, analisando títulos, autores e público, revela que as neuroses cinematográficas, na verdade, refletem a neurose daqueles que as concebem, interpretam e consomem do que o contrário.
Ph.D em Psicologia e professor da Universidade de Hanover, em Indiana, Stephen “Skip” Dine Young possui duas outra obsessões, além da área em que atua profissionalmente: a musica de Bob Dylan e o Cinema. Sua pesquisa teve como foco o cinema narrativo, tanto produções consagradas por suas qualidades técnicas, estéticas e tidas como verdadeiras obras de arte, divisoras de águas no segmento, quanto blockbusters comerciais e títulos B de horror e ficção-científica. Para tanto, assistiu a diversas sessões de centenas de filmes que vão de obras como Psicose a Cisne Negro, passando por Persona, de Bergman, e a trilogia Star Wars de George Lucas e os mega-sucessos de Steven Spielberg.
Mas o livro não se limita a analise dos filmes e seu impacto sobre o público. O autor também se debruça sobre o perfil psicológico e a formação biográfica de seus realizadores, como Alfred Hitchcock e Woody Allen, entre outros.
Carregados – em maior ou menor grau – do drama que marca a condição humana, filmes transbordam psicologia. Talvez não seja a toa que tanto o cinema, como arte e depois entretenimento, quanto a psicologia e psicanálise, como ciência, tenham surgido praticamente juntos em fins do século dezenove e tenham ambas tido tanto impacto cultural na década seguinte, como defende o autor.
Sendo assim, o livro de Young não é exatamente uma novidade. Desde 1916, com a publicação de The Photoplay: A Psychological Study, de Hugo Munsterberg, estudos sobre Cinema e Psicologia são escritos. O lançamento, no entanto, não traz mais do mesmo. Bem escrito e de fácil leitura, suas analises, tanto do conteúdo narrativo, quanto aos recursos estéticos utilizados para expor os aspectos psicológicos da trama ao espectador, revelam que A Psicologia Vai ao Cinema vem para somar e enriquecer as prateleiras sobre o assunto, que ainda deve render muito.

Serviço:
Título: A Psicologia Vai ao Cinema
Autor: Skip Dine Young
Editora: Cultrix

Número de Páginas: 256

Biblioteca – Artes Cênicas



Da Literatura ao Palco: Dramaturgia de Textos Narrativos
Por César Alves

A Literatura e a Dramaturgia são irmãs.
É claro que, da concepção à fase adulta, elas se desenvolvem por caminhos diferentes: a primeira no imaginário intimista do leitor e nas cores que ele dá às palavras e descrições durante a leitura; a segunda na interpretação dos autores, na direção da montagem e na encenação e execução do espetáculo sobre o palco. Mas, nas palavras que surgem aos comandos dos impulsos criativos de quem cria de frente para uma página em branco, ambas dividem o mesmo útero: o texto escrito.
Assim como acontece com o cinema, em que narrativas literárias podem acabar em bons roteiros, nada impede que um romance, um conto ou uma novela possa resultar em uma boa peça de teatro. A diferença é que, enquanto a bibliografia de estudos técnicos e teóricos para escrita cinematográfica tenha muitos títulos disponíveis em nossas livrarias, pouco, ou quase nada, se encontra sobre a escrita para teatro.
Parte da coleção Biblioteca Teatral, da editora É Realizações, é justamente sobre a escrita e, principalmente, a transposição de textos literários para a linguagem dramatúrgica que discorre Da Literatura ao Palco: Dramaturgia de Textos Narrativos, de Antonio Fernando Sinisterra.
Carregado de exemplos e propostas práticas, sobre o tema, o livro confirma-se como ferramenta indispensável para aqueles que se interessam pelo ofício. Fundamental para pesquisadores das artes dramáticas, dramaturgos iniciantes e mesmo os mais experientes.

Serviço:
Título: Da Literatura ao Palco: Dramaturgia de Textos Narrativos
Autor: Antonio Fernando Sinisterra
Tradução: Antonio Fernando Borges
Editora: É Realizações
160 páginas


terça-feira, 5 de julho de 2016

Cenário das Artes - Marcel Gautherot em Paris



Instituto Moreira Salles apresenta retrospectiva de Marcel Gautherot em Paris

Adquirida pelo instituto, a obra completa do fotógrafo francês, radicado no Brasil, é composta de cerca de 25 mil imagens.
Por César Alves

Em 1999 o Instituto Moreira Salles adquiriu a obra completa de um dos nomes mais importantes da fotografia praticada no Brasil durante o século XX, o francês Marcel Gautherot (1910 – 1996). O acervo é composto de 25 mil imagens que registram a arquitetura moderna e barroca, o folclore brasileiro, sua natureza e o comportamento humano. Parte dele –250 fotos, para ser mais exato – forma a exposição que, de 14 de junho à 4 de setembro, está na  Maison Européenne de la Photographie, de Paris, cidade onde o fotógrafo nasceu.

Com curadoria de Samuel Titan Jr e Sergio Burgi, trata-se da primeira retrospectiva de Gautherot realizada fora do Brasil e, para os organizadores, a mostra tem como objetivo reintroduzir o fotógrafo em seu circulo intelectual de origem e apresentar internacionalmente um panorama completo de sua obra, que passa pela documentação da construção de Brasília, mas também pelo registro da cultura popular e do povo brasileiro.
Filho de um operário e uma costureira, Marcel Gautherot iniciou sua carreira na arquitetura até se encantar pela fotografia em meados da década de 1920. Durante a década seguinte, foi figura ativa no circulo intelectual parisiense, especialmente em torno do Musée de l'Homme e da agência fotográfica Alliance Foto. A mostra traz registros dos primeiros anos de formação ainda na França, instantâneos de sua viagem ao México em 1936 e fotos históricas do início de sua carreira no Brasil, onde desempenhou papel de imensa importância na construção de nossa representação iconográfica moderna.
O fotógrafo viveu a maior parte de sua vida no Brasil, trabalhando com nomes fundamentais da cultura brasileira, como Rodrigo Melo Franco e Lucio Costa, no Serviço Nacional do Patrimônio (Sphan); Edison Carneiro, na Comissão Nacional de Folclore; Oscar Niemeyer, fotografando os principais projetos do arquiteto, incluindo a construção de Brasília; e Roberto Burle Marx, documentando seus projetos de paisagismo mais importantes.
O livro que acompanha a exposição Marcel Gautherot – Brésil: tradition, invention será lançado em quatro idiomas e traz textos de Michel Frizot, grande historiador da fotografia, Jacques Leenhardt, sociólogo e crítico de arte, além de textos dos organizadores da publicação, Samuel Titan Jr. e Sergio Burgi, e outro de Lorenzo Mammì, curador de programação e eventos do IMS. A edição francesa sai pela prestigiada Hervé Chopin e as versões em inglês e alemão pela editora suíça Scheidegger & Spiess. A edição brasileira será lançada pelo Instituto Moreira Salles.

Serviço:
Marcel Gautherot – Brésil: tradition, invention
Curadoria de Samuel Titan Jr. e Sergio Burgi
De 14 de junho a 4 de setembro
Maison Européenne de la Photographie
5/7 Rue de Fourcy
75004 Paris

Livro:
Marcel Gautherot, fotografias
Editora: IMS – Instituto Moreira Salles
256 páginas



O Último Lutador - O Ringue da Vida



Stênio Garcia comemora 60 anos de carreira com o espetáculo “O Último Lutador”

Trazendo o universo dos ringues para o palco, peça também encerra uma distância de 18 anos, desde que o ator pisou pela última vez no palco.
Por César Alves


Encerrando uma ausência de 18 anos, Stênio Garcia está de volta aos palcos, como protagonista da peça O Último Lutador. Escrito por Marcos Nauer, que também participa do espetáculo como ator, a trama gira em torno da descoberta de um câncer por Caleb (Garcia), patriarca de um clã de lutadores profissionais, que enxerga na descoberta da doença e um campeonato que oferece um milhão como prêmio sua chance para tentar reunir a família pela última vez.
A peça, que leva o universo do ringue aos palcos, usa o universo dos ringues para transpor os embates familiares, através dos dramas individuais de seus personagens como o neto perdido, o pai alcoólatra e os irmãos que não se falam. Por isto a escolha do espaço cênico remete às gaiolas das rinhas de galo que funciona perfeitamente como simbologia das lutas internas que terminam por distanciar uma família.

Segundo o autor, o papel teria sido escrito justamente para Stênio, que o abraçou como oportunidade para suspender a distância dos palcos e comemorar seus 60 anos de carreira, iniciada em 1956, ainda estudante de teatro, quando foi convidado para fazer o espetáculo O Anjo, de Agostinho Olavo, com direção de José Maria Monteiro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no Festival do Distrito Federal, no qual cada peça se apresentava por uma semana. Em televisão, completa 50 anos de carreira, sendo 43 anos na TV Globo, onde coleciona trabalhos de sucesso, em novelas como Que Rei Sou Eu?, O Rei do Gado e O Clone, e na série Carga Pesada, na qual contracenava com seu amigo Antonio Fagundes.
O espetáculo, que estréia em São Paulo após temporada de sucesso no Rio de Janeiro. No elenco, além de Stênio Garcia e Marcos Nauer, traz também Stela Freitas, Antonio Gonzalez, Glaucio Gomes, Mari Saade, Daniel Villas e Carol Loback.


Serviço:
Peça: O Último Lutador – O Ringue da Vida
Local: Teatro Porto Seguro
Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.

Telefone (11) 3226.7300.

Bilheteria: Terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.

Capacidade: 508 lugares.

Vladimir Sorókin - Dostoiévski-Trip



Barato da Literatura Quando Vício
por César Alves

Os amantes da literatura já devem ter experimentado a sensação de que o hábito de ler e pesquisar certos autores e obras, muitas vezes, se aproxima do vício. Descobrir um autor e sentir a necessidade de ler e reler toda a obra mais de uma vez é quase como encontrar aquela fórmula perfeita, lícita ou não, para os males da existência – com o perdão da filosofia barata. Para os que sofrem de tal dependência, a livraria, biblioteca ou estante de livros pessoal é feito farmácia, o sebo, uma boca de fumo, onde encontra obras não-ilícitas, mas tão raras que são como se proibidas, depois de anos fora das prateleiras. O atendente da livraria, seu farmacêutico; o alfarrabista, seu traficante ou dealer. Existem, inclusive, aqueles que despertam a curiosidade e, quando finalmente experimentamos, não bate ou dá barato! Livros feito placebos; autores que são feito cocaína batizada ou “fumo palha”.
Assim como o viciado em drogas, o dependente do verso e da prosa, mesmo percebendo o mal que o mergulho no universo de certos autores lhe causa, sente o desejo irresistível de ir além. Não havendo clínica de reabilitação, nem um programa dos sete passos para retroceder ao Paraíso da Ignorância, o leitor segue em busca de novas doses de psicotrópicos filosóficos, estimulantes existenciais, misturando doses de tramas, personagens, ficção, realismo, fantasia e fantástico, com formas narrativas, verbais, experimentos estético-textuais, num Breaking Bad químico-literário que só acaba com a inevitável overdose das letras, num quarto solitário ou laboratório clandestino de meta-anfetaletras.
Pedindo perdão pelo enorme nariz de cera acima – entenda como exemplo de como bate o barato das letras no leitor que também escreve, antes que eu fuja do tema, vamos logo ao que interessa.
Se toda aquela minha conversa fiada que abre o texto tem algum sentido, não é exagero dizer que, para alguns leitores, obras e autores, títulos e nomes escritos nas bordas dos livros, dispostos nas estantes, são como uma variedade de fármacos e substâncias, nas prateleiras de uma drogaria ou nas mãos de um traficante dos lados selvagens da paisagem urbana.

Tal analogia pode ser o que baliza a trama de Dostoiévski-Trip, peça de um único ato, escrita por um dos mais celebrados nomes da literatura contemporânea russa, Vladímir Sorókin, e publicado recentemente no Brasil pela Editora 34.
Com tradução e posfácio de Arlete Cavaliere, a obra é ótima introdução ao universo de Sorókin.
Protagonizado por sete personagens – cujos nomes não sabemos, assim como o lugar onde a historia se passa – que aguardam a chegada de um misterioso fornecedor, o texto abre com os diálogos inevitáveis que a impaciência costuma impor aos desconhecidos. Não demora e o leitor vai sacar que todos ali são como o personagem de uma velha canção do Velvet Underground, e estão waiting for their man. Sim, todos junkies! Viciados na droga da literatura. O traficante que eles esperam, negocia uma variedade de substâncias ilícitas que costuma trazer em uma maleta. São cápsulas com doses de William Faulkner, Franz Kafka, Tolstoi, Gogól, Celiné, Sartre e o que mais o cliente precisar.
Sim, a citação é intencional, os personagens estão a procura de um autor ou Sete Viciados à Procura de um Autor – novamente, pedindo perdão pelo trocadilho infame.
Mas essa é apenas a primeira das muitas sacadas interessantes e cômicas do livro. Como viciados que esperam o fornecedor que está atrasado e tentam evitar pensar na síndrome de abstinência, eles conversam para passar o tempo e evitar pensar no pior cenário: o de que ele não apareça. Como todo viciado, sem a substância de seu vício, o assunto não é outro senão as drogas, suas experiências com ela e seus efeitos.
São justamente os diálogos entre os cinco homens e as duas mulheres e suas histórias e experiências com substâncias de muitos dos nomes mais celebrados da literatura universal que compõem a primeira parte da narrativa, que empolga, envolve e surpreende o leitor, principalmente com a chegada do negociante que os personagens aguardam. Como sempre, em sua valise o homem tem tudo, mas sugere aos clientes uma novidade: um novo produto de nome Dostoiévski!
Vou parar por aqui para não estragar o barato da viagem, mas a experiência lisérgica, em que os personagens são transportados para uma passagem conhecida de O Idiota, que culmina em uma terrível bad-trip é fantástica.
Carregada de humor, sarcasmo, violência, pornografia e escatologia, a obra de Sorókin não é o tipo de narcótico para estômagos fracos, é sempre bom avisar. Opositor assumido de Putin, Vladímir Sorókin surgiu na cena underground moscovita dos anos oitenta. Mas, embora reconhecido mundialmente desde 1985, quando seu romance A Fila foi publicado na França, o autor foi censurado em seu país e seu primeiro livro na terra pátria só saiu em 1992, uma coletânea de Contos Escolhidos.
Entre seus diversos romances e peças, merecem destaque O Dia do Opríchnik (2006), a trilogia Gelo (2002), O Caminho de Bro (2004) e 23000 (2005).


Serviço: Dostoiévski-Trip; Autor: Vladímir Sorókin; editora: Editora 34